A LATAM Airlines limitou a quantidade de beneficiários que podem resgatar passagens com pontos da Rede Multiplus para 25 pessoas distintas no intervalo de 12 meses.

Comunicada por e-mail em maio deste ano aos 15 milhões de participantes, a alteração no regulamento do LATAM Fidelidade passou a valer no dia 9 de agosto e já incomoda aqueles que costumam realizar um alto número de resgates. Em nota, a empresa alega que prioriza investir em “novos benefícios aos clientes, além de garantir a sustentabilidade” do programa.

Desde então a mudança suscita um acalorado debate entre os participantes do LATAM Fidelidade que consideram as cláusulas arbitrárias e oferecem ao consumidor desvantagem exagerada.

Murilo Rosa é milheiro desde 2007 e interpreta a alteração como uma forma da companhia aérea obter lucro em cima da taxa de breakage, isto é, pontos que vencem e não são resgatados. “Essa decisão da LATAM vai de encontro ao que o marketing divulga”, ele ressalta. “Muitas pessoas investem por causa de uma promoção, mas acabam perdendo dinheiro porque não podem utilizar as milhas como querem.”

Para obter pontos, o milheiro utiliza o programa Km de Vantagens, parceria entre o Posto Ipiranga e a Rede Multiplus. Ele revela que também costuma usar as milhas para realizar viagens pela LATAM. “Se vou viajar com um casal de amigos, eu pago a passagem porque tenho muitos pontos, e eles pagam a hospedagem. Ocorre uma troca e fica bom para todos”, diz.

Portanto, limitar o número de resgate não afeta somente aqueles que negociam grandes volumes de milhas. “Meus parentes querem viajar e essa alteração impede o meu consumo”, conta o cliente.

Para Murilo, o fluxo de transferência dos pontos para a Rede Multiplus vai sofrer uma diminuição, o que fará com que a LATAM Fidelidade revise o regulamento posteriormente. “Se há uma limitação na Multiplus, mas nos outros programas com os mesmo parceiros não existe, com certeza o cliente vai recorrer ao que for melhor recebido e oferecer mais vantagens”, afirma.

Negociação de milhas aéreas

Os programas de fidelidade deixaram de ser uma mera ferramenta de aproximação entre clientes e grandes empresas. Para os brasileiros, se transformou numa fonte de renda extra. Operadoras de milhas como Elomilhas, Bankmilhas e Hotmilhas desempenham papel fundamental na negociação dos pontos acumulados. Elas atuam como intermediárias na compra das milhas pelos participantes e, por meio de outro negócio, na venda de passagens. Após comprar as milhas, as empresas utilizam o saldo para emitir bilhetes aéreos com preços mais em conta e em seguida vendê-los a agencias de viagens ou ao consumidor final.

A Multiplus e a LATAM Fidelidade, por exemplo, permite a compra de até 500 mil pontos a cada 12 meses, enquanto o teto do Smiles se limita a 40 mil, e do TudoAzul a 100 mil pontos. “A estratégia da LATAM Fidelidade é possibilitar que o cliente acumule muitas milhas, e ao mesmo tempo limitar a utilização por meio de cláusulas contratuais, o que não parece coerente“, pontua Tatiane Chaves, gerente operacional da EloMilhas. “A medida também é uma forma de coibir o comércio paralelo desses pontos”, destaca.

Com a possibilidade de acumular um grande volume, os milheiros julgam a negociação das milhas como um recurso para driblar a crise e evitar que se expire a pontuação. Segundo levantamento realizado pela Associação Brasileira das Empresas do Mercado de Fidelização (ABEMF), considerando somente o primeiro trimestre de 2017, 17,6% dos participantes dos programas de milhas perderam seus pontos.

Esse acúmulo resulta em um grande volume de dinheiro desperdiçado. A exemplo disso, em 2016, cerca de 50 bilhões de pontos expiraram, ou seja, em torno de R$ 1 bilhão foi perdido.

No entanto, comercializar esses pontos é expressamente proibido no entendimento das companhias aéreas brasileiras, sob pena de suspensão ou exclusão sumária do Programa. Atualmente não existe lei que impeça a operação. Isto é, apesar de movimentar mais de R$ 500 milhões ao ano, trata-se de um mercado sem qualquer regulamentação e por isso não pode ser considerado ilegal.

Para o fundador e diretor da Elomilhas, Patrício Silva, a negociação é uma forma de tornar o uso dos pontos acumulados em programas de fidelidade mais flexível. “Acredito que a maior vantagem da venda das milhas é o fato de você poder trocar os pontos que acumulou por dinheiro para fazer o que quiser e não ficar restrito à taxa de conversão”, ressalta.


Postado em 24/09/2018